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Estadão aborda experiência norte-americana no desporto universitário

Atualizada: Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Reportagem do Estadão.com.br mostra que gestão do desporto universitário nos EUA é lucrativa

Confira abaixo matéria publicada no dia 15/12/2009, na página do Estadão.com.br, sobre o investimento das universidades norte-americanos no desporto universitário.

Bolsas para esportistas nos EUA atraem brasileiros
* de Ana Bizzotto, Elida Oliveira, Carolina Stanisci - Especial para o Estadão.edu

Nas universidades americanas, brasileiros aliam formação acadêmica de primeira linha à chance de usar estrutura de treinamento digna dos jogos olímpicos

SÃO PAULO - Talento e dedicação são características comuns a Cesar Cielo, Thiago Pereira, Michael Jordan e ao agora polêmico Tiger Woods. Mas não as únicas. Todos eles, em algum momento de suas carreira, treinaram e estudaram em universidades dos Estados Unidos. A boa estrutura acadêmica e o alto nível técnico do esporte universitário americano atraem gente do mundo inteiro.

Não há estatísticas atualizadas para alunos-esportistas. Mas estudo publicado em novembro pelo Institute of International Education, ONG americana que trabalha com programas de educação e treinamento, mostrou que, de 2008 para 2009, houve aumento de 8% nas matrículas de estrangeiros em universidades dos Estados Unidos. O Brasil é o 13º país que mais envia alunos.

Para quem quiser seguir a mesma trajetória do Dream Team citado no início do texto, é necessário passar por algumas etapas. A primeira delas é entrar em contato com as universidades para conhecer as exigências de seleção, variadas, e a papelada, extensa.Todos os estrangeiros devem comprovar fluência em inglês, certificada pelo Test of English as a Foreign Language (Toefl), ter boa média no Scholastic Assessment Test (SAT, espécie de Enem americano), no qual cada universidade exige uma nota mínima, apresentar histórico escolar e cartas de recomendação. Para esportistas é preciso, ainda, mostrar talento. Muitos candidatos enviam vídeos para comprovar sua performance.

O esforço vale a pena. Além de cursar boas universidades, os atletas participam de competições de alto nível - vários jogos têm transmissão ao vivo por canais de TV. A liga mais importante do país, a National Collegiate Athletic Association (NCAA), organiza 88 campeonatos de 23 modalidades e tem filiados em mais de mil universidades. Para participar dos torneios, porém, o estudante não pode ser profissional nem ter patrocínios.

O campeão olímpico Cesar Cielo, de 22 anos, é um dos brasileiros com bolsa de estudo integral. Chegou ao país em 2005 para cursar Comércio Exterior com especialização em espanhol na Universidade Auburn, no Alabama. Pela Auburn, ganhou dez ouros na 1ª divisão da NCAA.

Com a proximidade dos Jogos Olímpicos de Pequim, Cielo trancou matrícula, em maio de 2008, para se preparar. Depois, não pôde mais competir pela universidade, porque passou a ser considerado profissional. "Tenho até dezembro de 2011 para voltar às aulas."

"A NCAA investiga se o estudante é profissional", diz Felipe Fonseca, de 32 anos, diretor da Daquiprafora. A empresa já enviou, desde 2001, mais de 800 estudantes para os EUA. "Traçamos um perfil do atleta para saber qual é a universidade ideal. A partir daí, entramos em contato."

Quando o esportista é desconhecido, a agência costuma enviar um vídeo e o currículo escolar para o técnico do time da faculdade - lá a figura do "coach" é mais poderosa que no Brasil. Cabe a ele decidir quem ganhará a bolsa, que cobre custos de aulas, moradia e alimentação, e definir se o auxílio será integral ou parcial.

As universidades não cobrem o custo da passagem aérea. Mas é possível conseguir ajuda para isso no Brasil mesmo. A Fundação Lemann, parceira da Daquiprafora, paga a passagem de candidatos com potencial esportivo (e acadêmico). "Nosso retorno é enorme. O forte do programa é a pessoa ter o mérito de passar numa universidade", diz Marta Sider, gerente do projeto na Lemann, que, só este ano, ajudou 32 brasileiros a entrar em universidades americanas.

Adriana Niclotti, de 22, é uma das beneficiadas pela Lemann. Caddy no clube de golfe de sua cidade, Gramado (RS), ela cursa o 2º ano de Negócios na Universidade Batista da Califórnia, perto de Los Angeles. Sua mãe é chefe de cozinha do clube em Gramado e o pai trabalha com transporte numa fábrica de geleias. Adriana já ganhou quatro torneios pela universidade, filiada à segunda liga mais importante do país, a National Association of Intercollegiate Athletics (Naia).

"Estava em dúvida se viria para cá. Seria caro para meus pais", diz a golfista, que não pretende voltar ao Brasil tão cedo e quer se profissionalizar nos EUA. "Estou entre as dez melhores do país."O goleiro carioca João Paulo de Abreu Rodrigues, de 22 anos, foi para os EUA este ano pela Daquiprafora. Passou sufoco para provar à NCAA que não era profissional. Só foi liberado para jogar dias antes do início do campeonato, em agosto. "Se não participasse do torneio, perderia a bolsa", diz o calouro em Finanças na Universidade Barry, em Miami.

João Paulo atraiu a desconfiança da NCAA por ter jogado nas categorias de base de clubes profissionais, como Flamengo e Botafogo. "Todos os meus ex-treinadores tiveram que enviar e-mail para provar que eu não era pago."

Além de passar nos testes e ter seu passado investigado pela NCAA, os estudantes-atletas precisam manter as notas acima da média. "Senão eles tiram a universidade das competições e mandam os nadadores estudar", diz Cielo.

Comparar o esporte universitário no Brasil e nos EUA é impossível. "O orçamento de esportes das universidades daqui é parecido com o dos clubes de futebol do Brasil", diz o tenista João Marcelo Pinho, de 26. Segundo ele, a Ohio State, uma universidade de porte, destinou à área esportiva o equivalente a R$ 182 milhões em 2007. É quase o triplo dos R$ 65 milhões do orçamento de 2010 do Vasco, time pelo qual Pinho torce. "É por isso que eles têm tantas medalhas em Olimpíadas e nós, não."

Pinho trabalha atualmente na Intercollegiate Tennis Association (ITA), em New Jersey, e organiza torneios de tênis universitário. No país desde 2002, teve bolsa como tenista na Austin Peay State University, no Tennessee, e na Utah State University. Formou-se em Marketing e Administração de Recursos Humanos. Conheceu 31 Estados e chegou a ser assistente técnico do time da Universidade de Toledo, em Ohio. "Se puder, eu não volto. No Brasil não tem muito investimento em esporte."

Esporte é lucrativo para universidades

Os americanos dão importância ao esporte universitário não só porque ele é um celeiro de astros olímpicos. O negócio é lucrativo. As semifinais do basquete masculino da NCAA - Final Four - levaram este ano mais de 70 mil fãs ao estádio Ford Field, em Detroit.

"Milhares de pessoas acompanham as partidas. Eles investem porque gera dinheiro. Faculdades com times fortes atraem alunos que pagam anuidades de US$ 50 mil", diz Ricardo Silveira, sócio da 2SV Sports, que tem contato com mais de 100 universidades e envia aos EUA de 25 a 40 alunos com bolsa por semestre.

Uma das modalidades com as quais a 2SV Sports trabalha é o futebol. Ela faz três pré-avaliações por semestre para escolher os melhores jogadores. O Estadão.edu acompanhou uma dessas peneiras em Itatiba, no interior paulista, em agosto. Entre os 54 candidatos, 2 foram escolhidos para o teste final, realizado no último fim de semana. A decisão, que sai até sexta, caberá aos cinco técnicos americanos que vieram avaliar os atletas. Um dos pré-selecionados é Vinicius Serafico, de 15 anos, aluno da 1ª série do Colégio Bandeirantes. "A estrutura deles é muito boa. Quero fazer Medicina, e aqui é complicado conciliar faculdade e futebol."

Silveira garante que, quanto mais cedo o aluno for para o exterior, mais fácil é a adaptação. "Nos Estados Unidos, se o estudante não se desenvolver tecnicamente a ponto de se tornar um jogador profissional, pelo menos terá o diploma."

É nisso que aposta Daniel Stapff, de 19 anos, aluno do 2º ano de Finanças da Barry. O curitibano, campeão brasileiro de golfe amador, chegou a Miami no ano passado. Pretende se profissionalizar lá mesmo. Se não der certo, tem um plano B: "Posso trabalhar em um banco no Brasil."

Daniel participa das competições universitárias defendendo a Barry. Treina quatro horas por dia, de segunda a sábado. "A rotina é solitária. Compensa porque temos amigos do mundo todo."

Liderança - Para Chad Waller, diretor de Esportes da Naia, o circuito universitário proporciona lições de vida. A liga diz trabalhar a construção do caráter dos estudantes, estimulando valores como responsabilidade e integridade. "A maioria não se profissionaliza. Mas os alunos se tornam líderes e pessoas respeitáveis."

Para os brasileiros, a superação dos obstáculos garante um aprendizado ainda maior. "Você fica quatro anos fora, longe de todo mundo, às vezes com neve até a orelha. Tem que ser forte para aguentar", afirma Silveira.

 

Fonte: Estadao.com.br
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